Depois de vinte anos na escolaaaaa não é difíc-- em ambiente escolar é relativamente simples identificar professores que se comprometem com o que fazem e os que estão ali pra garantir o leite das quiança, o anel de diamante da esposa ou a cerveja do fim de semana. Tendo saído de uma universidade pública e caído num centro universitário particular, reparei que as diferenças são muito maiores entre os alunos desses dois tipo de instituição que entre os professores, como era o meu medo. A diferença mais gritante é a postura de crianças obrigadas a fazer dever de casa que parte do pessoal da particular carrega e bota pra fora a todo momento. Ler texto de 10 páginas é castigo, trabalho descrevendo 20 tipos de ervas é tortura, é sacanagem do professor pedir que a turma experimente ingredientes, preparações ou o caralho a quatro de que não se goste. O "aim, não gostom, aim, não querom" é espantosamente comum. Convenhamos que um estudante de Gastronomia não precisa gostar de todos os sabores, mas tem a obrigação de conhecê-los.
Sexta-feira tivemos uma aula prática, com um desses professores que dá banho de competência em vários que eu tive na UnB, dividida em duas partes: na primeira ele preparou uma língua de vaca, explicou como se faz o pré-preparo, quais as possibilidades para a limpeza etc etc. Na segunda parte fizemos testas para a prova que será feita na semana que vem, a criação de um prato com determinadas características definidas pelo professor, que será, no entanto, avaliado por um convidado "leigo" em Gastronomia.
Foi a primeira vez que tivemos que efetivamente criar um prato, ainda que tivéssemos algumas ideias diferentes, não havia sido exigido isso até o momento. Cada dupla foi lá, executou sua ideia, testou o que achava que funcionaria. O professor orientou e, com os pratos prontos, deu sugestões de apresentação e eventuais mudanças. Finda essa parte, voltamos à lingua do boi, que jazia num molho espesso e perfumado. O chefe da brincadeira comentou que ainda não estava no ponto ideal, mas já seria possível saber do que se trata o prato.
Língua de boi é um troço horroroso. Se você já viu uma, sabe que eu não tô exagerando. Eu, particularmente, não gosto da textura da carne, o sabor, contudo, me agrada. Fui lá, peguei meu pedacinho de carne, experimentei, achei muito saborosa, porém a experiência não foi completamente boa por conta da textura e isso foi relatado. O que se seguiu foi uma porrada de gente se negando a sequer degustar a preparação. O professor falou algo muito parecido com o que tá escrito ali sobre a nossa obrigação de conhecer ingredientes e a existência de empregos muito bem pagos pra quem se dispuser a realmente trabalhar por eles, terminou com um "ah, não vou mais gastar meu latim com vocês" e uma cara tão frustrada que me deu vontade de ir lá abraçá-lo.
Saindo da sala, fui conversar com ele sobre mudanças no meu prato que, a despeito de ser uma boa ideia, havia ficado muito aquém do potencial existente na mistura escolhida.
Falei o que eu imaginava que pudesse melhorar, ele concordou com umas coisas, discordou de outras e aí eu disse o quanto achava difícil criar com tanta coisa que eu poderia acrescentar. Perder o foco é muito fácil.
_Isso é porque vocês não usam a técnica que eu ensinei.
_Desculpa, acho que nã--
_Cê não vai me perguntar qual técnica, Mayra?
_Hehehe, vou. Qual técnica?
_Escrever. Coloca no papel o que você acha que pode funcionar. Vai imaginando, o peixe será feito assim, vou usar tal tempero, meu molho é acido, então minha carne precisa ser mais adocicada, ou ter alguma gordura pra balancear, usa o modelo de ficha técnica que vocês têm, escreve, decide os acompanhamentos, a guarnição, você já pode até pensar a apresentação do prato nesse estágio. Quando você for executar a receita, anota as modificações que você precisar fazer. Vocês querem cozinhar só por inspiração e isso não funciona sempre. Quando você constrói, faz uma planta primeiro, não sai construindo a esmo, né?
Eu apenas concordei e agradeci. Não concordei com tudo, porque sou rebeldeporque o mundo quis assim. Nã, porque eu sou cabeçuda mesmo e acho que criação é um processo pessoal, pode ser diferente pra cada um, tanto com a caneta quanto com as panelas.
Acontece que eu saí de lá com tanta coisa na cabeça. E acho que essa pode ter sido uma das coisas mais valiosas que eu aprendi nesse curso, ali, ó, parelhado com com o bife perfeito.
Não tenho muita certeza se digeri tudo que eu vi e ouvi. Parece pouco pra quem vê de fora, eu suponho, e tomou minha cabeça dum jeito que, se um dia alguém escrever um livro sobre mim [deus livre o mundo de tamanha desgraça], terá obrigatoriamente que citar essa noite.
Sexta-feira tivemos uma aula prática, com um desses professores que dá banho de competência em vários que eu tive na UnB, dividida em duas partes: na primeira ele preparou uma língua de vaca, explicou como se faz o pré-preparo, quais as possibilidades para a limpeza etc etc. Na segunda parte fizemos testas para a prova que será feita na semana que vem, a criação de um prato com determinadas características definidas pelo professor, que será, no entanto, avaliado por um convidado "leigo" em Gastronomia.
Foi a primeira vez que tivemos que efetivamente criar um prato, ainda que tivéssemos algumas ideias diferentes, não havia sido exigido isso até o momento. Cada dupla foi lá, executou sua ideia, testou o que achava que funcionaria. O professor orientou e, com os pratos prontos, deu sugestões de apresentação e eventuais mudanças. Finda essa parte, voltamos à lingua do boi, que jazia num molho espesso e perfumado. O chefe da brincadeira comentou que ainda não estava no ponto ideal, mas já seria possível saber do que se trata o prato.
Língua de boi é um troço horroroso. Se você já viu uma, sabe que eu não tô exagerando. Eu, particularmente, não gosto da textura da carne, o sabor, contudo, me agrada. Fui lá, peguei meu pedacinho de carne, experimentei, achei muito saborosa, porém a experiência não foi completamente boa por conta da textura e isso foi relatado. O que se seguiu foi uma porrada de gente se negando a sequer degustar a preparação. O professor falou algo muito parecido com o que tá escrito ali sobre a nossa obrigação de conhecer ingredientes e a existência de empregos muito bem pagos pra quem se dispuser a realmente trabalhar por eles, terminou com um "ah, não vou mais gastar meu latim com vocês" e uma cara tão frustrada que me deu vontade de ir lá abraçá-lo.
Saindo da sala, fui conversar com ele sobre mudanças no meu prato que, a despeito de ser uma boa ideia, havia ficado muito aquém do potencial existente na mistura escolhida.
Falei o que eu imaginava que pudesse melhorar, ele concordou com umas coisas, discordou de outras e aí eu disse o quanto achava difícil criar com tanta coisa que eu poderia acrescentar. Perder o foco é muito fácil.
_Isso é porque vocês não usam a técnica que eu ensinei.
_Desculpa, acho que nã--
_Cê não vai me perguntar qual técnica, Mayra?
_Hehehe, vou. Qual técnica?
_Escrever. Coloca no papel o que você acha que pode funcionar. Vai imaginando, o peixe será feito assim, vou usar tal tempero, meu molho é acido, então minha carne precisa ser mais adocicada, ou ter alguma gordura pra balancear, usa o modelo de ficha técnica que vocês têm, escreve, decide os acompanhamentos, a guarnição, você já pode até pensar a apresentação do prato nesse estágio. Quando você for executar a receita, anota as modificações que você precisar fazer. Vocês querem cozinhar só por inspiração e isso não funciona sempre. Quando você constrói, faz uma planta primeiro, não sai construindo a esmo, né?
Eu apenas concordei e agradeci. Não concordei com tudo, porque sou rebelde
Acontece que eu saí de lá com tanta coisa na cabeça. E acho que essa pode ter sido uma das coisas mais valiosas que eu aprendi nesse curso, ali, ó, parelhado com com o bife perfeito.
Não tenho muita certeza se digeri tudo que eu vi e ouvi. Parece pouco pra quem vê de fora, eu suponho, e tomou minha cabeça dum jeito que, se um dia alguém escrever um livro sobre mim [deus livre o mundo de tamanha desgraça], terá obrigatoriamente que citar essa noite.

