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quinta-feira, 26 de maio de 2016

dos ônibus





Hoje eu me dei conta de um fato: não fui feita pros ônibus.
É um meio de transporte meio confuso, as possibilidades de erro são infinitas - como eu vou saber em que lado da rua eu devo esperar? - e, mesmo quando você acha que nada pode dar errado, você estará redondamente enganado. Redondamente porque o ônibus ficará dando voltas e ninguém chegará a lugar nenhum.

Quando eu era criança pequena lá em Anáps [leia-se: até os 19 anos, quando me mudei], não tinha a noção exata de que era necessário fazer sinal para um determinado ônibus parar. Vejam bem, quando eu estava sozinha, eu invariavelmente estava indo para o centro e todas as linhas vindo naquela direção iam para o terminal urbano, que fica... no centro. Se tem alguém esperando, o motorista para e pronto, é simples. E indo para outros lugares, eu normalmente saía do terminal, então não precisava sinalizar. 
Chegando em Brasília foi esse choque, né, ter que saber nome e número de linha, enxergar o letreiro, conseguir sinalizar, me fazer ver e dar a sorte de o motorista decidir parar. Era sempre uma aventura. Teve aquela vez em que motoristas e cobradores me deram informações erradas e eu peguei 5 ônibus e gastei coisa de 20 reais de passagem num dia só. E aquele dia que eu descobri que tem um ônibus que, em vez de fazer as asas em linha reta, fazia em X. Desenhei pra quem quiser entender melhor.


principais linhas no plano piloto de brasília


Depois de cinco anos de Brasília, dois deles precisando, de fato, de ônibus, eu passei a entender menos ainda o transporte público da capital.

Quando eu estava viajando, a frase que mais falei foi "só no Brasil que isso acontece", porque, prestenção, é tudo igual. Fiquei hospedada na casa de uma tia, a 10 km de Milão. Isso dava 20 minutos de ônibus, que eu pegava numa estação de metrô ainda dentro da cidade. Pois bem, a linha 175, que eu pegava e parava a menos de 100 metros da casa de titia era sempre uma aventura. Na primeira vez, entrei no ônibus certo, conferi com o motorista, ele me mandou passar pro ônibus errado, passei só três cidades do que deveria. Voltei tudo. Fui mais uma vez. Fiquei puta, desci no meio do caminho e fui a pé. Pela estrada. Na segunda, já contando com isso, desci na cidade depois da casa dela e fui a pé mesmo. Na terceira, deu certo. Na quarta, considerando que meu ponto era entre as cidades 3 e 4, o motorista decidiu entrar na cidade 3, dar uma volta, passar na cidade 3A, sair pela lateral e chegar na cidade 4. Numa outra ele resolveu simplesmente não parar quando eu pedi.
Eu descobri, ao longo de três meses, que ela faz pelo menos cinco caminhos diferente e descobri quase todos assim, no susto. Aliás, eu gosto muito dos nomes: Milano - Pavia, que parava em Binasco e na casa da minha tia - e em todos os pontos do caminho; Pavia Diretto, que parava em Binasco também, mas não em casa; Pavia DIRETTISSIMO, essa foi a minha preferida, de verdade. A Itália é linda e desorganizada.

São Paulo, por exemplo, é muito mais organizada, o google maps funciona e você sabe quando o ônibus vai passar. Só é complicado porque são linhas DEMAIS, então tem que ficar atento, porque nem todo Sacomã vai pro Sacomã e às vezes isso pode confundir. Hoje mesmo, eu fui ali pegar um ôns, aqui na rua abaixo da minha, praticamente um desembocadouro de ônibus, mas precisava andar umas quadras, porque o meu não parava aqui na esquina. Fiz o que qualquer pessoa calçando um sapato não tão confortável faria, peguei um outro até lá e esperei o segundo [terceiro, na verdade, tava vindo da rua]. Opa, tá vindo, conferi o número, pulei pra dentro! Ué, subiu, ué, tá indo pro rumo da minha casUÉ minha esquinMas, gente, tá voltando, mas tinha um senhor do meu lado, e, de qualquer jeito, tava voltando pro terminal. Ele se levantou, eu fui perguntar pra cobradora, ela me explicou:
_Ô, meu bem, você precisava ter entrado no Terminal Carrão, aqui é o Conceição!
_Mas não é o [falei o numro, já esqueci a essa altura]?
_Isso, ele é Carrão num sentido, Conceição no outro.
*confusa pra caralho* _Mas eu tava na mesma parada onde peguei da outra vez, não faz sentido...
_Sim, os dois passam lá.
Bem, desci, peguei o certo. Passou na esquina da minha casa.

Tá vendo? É fácil.



terça-feira, 24 de maio de 2016

dos passeios





Tem um ano que eu não venho aqui. 
Na verdade, os rascunhos dizem algo diferente, apenas tem um ano que eu não posto aqui. Nesses 12 meses, eu acumulei milhas no programa da vida e no ano de 2015 não completei 20 dias seguidos dormindo em casa. Fui a cidades que sempre quis conhecer e me surpreendi com tantas outras, vi a casa onde a Marie Curie nasceu, o mercado de Budapeste, andei de barco no Danúbio [que é verde, não é azul], tomei suco num café em Viena [quarenta graus césios, gente, não consigo beber café], comi pierogi doce em Cracóvia e vi as sereias de Varsóvia. Fiquei esperando os bonequinhos do relógio de Praga, achei um castelo no meio de Milão, conheci várias estações na Suíça - e comprei doces nelas-, surtei com os azulejos em Lisboa, comi um travesseiro em Sintra e até hoje me arrependo por não ter comido 10. Tomei chuva em Veneza, comi macaron em Nice, fiquei esperando topar com a Carol em Monte-Carlo, chamei o Coliseu de colossal em Roma, descobri em Copenhague que os dinamarqueses são adoráveis. Completei as tartarugas ninjas em Florença, consegui comer bem em Londres, andei feito uma doida pelos arredores de Kaiserslautern, comi tarte gratin numa cidadezinha da Lorena e me apaixonei perdidamente por Edimburgo.



início das terras altas da escócia



Dormi em hotéis, hostels, sofás, casa de [minha] família, colchão no quarto de amigo, estação de trem, aeroporto e basicamente qualquer superfície que oferecesse um mínimo de apoio. Conversei com estranhos portando os mais diversos sotaques, gente amigável, na maior parte das vezes; pessoas que se surpreendiam com "nossa, uma mulher viajando sozinha por três meses" e, sim, dois terços da minha viagem foram feitos só com euzinha e meu finado ipod. Levando-se em consideração que no país em que eu estava sem internet, a língua era a mesma [ai, Portugal, volta pra mim]; quando eu visitei cidades menores eram todos polos turísticos e uma língua parecida [Prego! Parla italiano, bambina?] e, depois, quando não se falava inglês e era interior, era um país onde as coisas tendem a funcionar super bem [embora o destaque alemão, para mim, seja no quesito PÃO], até que conversei bastante e a internet sempre esteve à mão pra ajudar no que fosse importante ou necessário.


Entra aí uma questão no qual eu não tinha pensado muito, mesmo bastante tempo depois. Talvez a naturalidade da sensação tenha posto a racionalização pra dormir: foram mais de dois meses praticamente sozinha. Andar, comer, visitar museus, enfrentar filas, dormir em parques, pegar ônibus de city tour. Uma vez que a própria companhia deixa de ser um tormento e os pensamentos não são exatamente um martírio. Eu me mudei, vim morar num apartamento só meu e esses pensamentos agora ocupam todos os cômodos, parece ser de importância que eles não me machuquem, não me incomodem demais.

Não sei quando foi, exatamente, mas em algum momento da vida, eu percebi que a passaria sozinha. Solitária não parece ser bem a palavra, mas sozinha, embora, sim, eventualmente fique solitário. Ter prazer em passar uma manhã em silêncio, decidir se naquele dia todas as refeições serão feitas no sofá tendo só uma cadeira como apoio, levantar, sem sono, de madrugada e fazer um chá, talvez ouvindo música.

Acho que o ponto todo é esse. A impressão que tenho é que uma pessoa pode correr mundo, estar cercada de outras, pode ter amigos, família, pode estar onde for, se ela tem a tendência natural pra ser sozinha, não foge disso. Nem tentando.



a sereia guerreira, em varsóvia

quinta-feira, 28 de maio de 2015

do que se aproxima




Na beirada de tomar uma decisão [que já foi tomada, na verdade], as perguntas deram uma cutucada aqui no ombro, e optei por ignorá-las, já que não fazem tanta diferença assim.
O pé já se molhou, a onda já umedeceu a barra da saia, a água tá gostosa, mas o mar é grande, repara, até o barulho dele é de algo enorme. 
Senti cheiro de fruta madura, de grama molhada e cheiros novos, que ainda não identifiquei. Parece que tem outros mais pra frente.


Vou lá ver do que se trata.

sábado, 9 de maio de 2015

das estrelas




Minha tristeza é calma. 
À noite na estrada dá pra ver um bocado de estrelas - eu não as via há muito tempo. 
Minha tristeza é calma. 
O player decide tocar duas vezes cada música do Jeff Buckley e eu nem penso em reclamar. 
Minha tristeza é calma e aparentemente continua enganando as pessoas, se passando por paz de espírito. 
(talvez seja)

Fake it until you make it?

terça-feira, 21 de abril de 2015

da presença




Eu gosto de presença.
A despeito de ser uma pessoa essencialmente sozinha, eu gosto da presença das pessoas que mesmo de longe me fazem sentir como se estivessem por perto. É uma sensação curiosa, cheia de incoerências, mas até aí, cheia de incoerências eu também sou. As pessoas que possuem tal capacidade entram no meu coração bocozinho de graça, escorregam pra dentro e ficam ali me nutrindo, às vezes, até sem saber.
Hoje eu reparei que uma dessas pessoas não era assim só pra mim, era pra um monte de gente. E foi bonito de observar. 
Das poucas coisas em que eu acho que me dou realmente bem na disciplina Maturidade é aquela parte em que nos ensinam que é melhor uma pessoa querida bem e longe que mal e por perto. 
Hoje eu estive perdida nas palavras e engasgada nos sentimentos, uma mistura não equilibrada de tristeza e alívio.
Alívio pelo fim do sofrimento. Tristeza pelo sofrimento que teve que acontecer. Alívio por não ter sido maior. Alívio. Alívio. Alívio. Abraço. Presença.