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quarta-feira, 23 de junho de 2010

das dores mais profundas




Era pra ser um telefonema de parabenização pelo novo filhinho. A mãe, minha primeira amiga de adolescência, risonha e faladeira, nunca teve voz tão séria quanto hoje.
_Ei, como você está?
_Tô mal aqui nesse hospital.
...

Liguei já sabendo que as notícias não seriam, assim, de pular de alegria, mas o que encontrei foi um cenário que deve me fazer chorar por mais um mês ainda. Não, ninguém morreu, porém o bebê nasceu com uma síndrome rara e um monte de problemas sérios. Daqueles sobre os quais a gente lê, fica com pena dos pais e fecha a revista. Nunca se imagina que vai acontecer com alguém tão próximo, tão querido.
Mais de uma hora de telefone, alguns risos, troca de informações banais, mas a voz preocupada, chorosa, embora absolutamente decidida a aguentar o tranco, não me deixava relaxar de verdade. Num momento ela falou de cartas que trocávamos aos 13, 14 anos. Veja bem, eram, em média, duas cartas por dia, todos os dias, durante um ano. Tem besteira pra caramba lá. E rimos feito nenhum problema estivesse no ar. Uma enfermeira entrou no quarto onde ela estava e precisou de ajuda para algum procedimento. Fiquei triste de cá.

Dei a força que eu achei que tinha que dar, falei as palavras que eu sabia que ela precisava ouvir, desliguei e fui chorar. Chorei quieta, quase calada, pela dor que ela sente, pela ajuda que eu não posso dar, pelo abraço que a distância impediu.

Não descobri ainda dor maior do que a de quem a gente ama.

10 comentários:

Bianca disse...

Apesar do sentimento de dor que vc passou para os leitores, foi muito lindo e bem escrito. Acho que só a sua amizade para ela já deve ser de grandíssima ajuda.

Um beijo!

Cris disse...

"Não descobri ainda dor maior do que a de quem a gente ama."
Que verdade!
Já estou aqui, torcendo pela sua amiga e pelo bebê. E pode ter certeza que a distância não impediu que ela recebesse todo seu carinho e apoio!

Tati disse...

Oh, boy. É horrível essa sensação de ver quem a gente ama sofrendo e não poder fazer nada. Mas acredite, seu carinho já faz a diferença em uma situação dessas. E essas cartinhas, eu tbem trocava cartinhas com a minha melhor amiga na adolescência. Eram tantas e eu nem lembro sobre o que. Mas é uma lembrança tão boa de se ter...

Livia Holanda disse...

Que triste...
Queria dar cafuné em todos os envolvidos, mas sei que não ia fazer muita diferença. Anyway, fica meu desejo pra que o conforto venha logo. A sensação de impotência é péssima, mas logo as coisas tomam um rumo bom.
Fiquem bem.
:*

disse...

ei Livia! Acho que um cafuné ia fazer muita diferença sim! Deitar no colo e abraçar podem curar muitas coisas!
A sensação de nem isso poder fazer é que é ruim... ruim mesmo! Do tipo de dor que a gente sabe que doí cronicamente por tempos... =/


"Não descobri ainda dor maior do que a de quem a gente ama." =(
Mandando boas vibrações para todos os envolvidos desde já! E que tão logo descubras a Alegria sem medidas que só Amores assim como o seu podem construir...
Força Garota!

Heitor disse...

A nossa dor, a gente aguenta do jeito que dá, mas a dor dos outros normalmente dá uma sensação de impotência danada...


Mas se a gente pode fazer o mínimo que seja de torcer por ela, pode ter certeza que faremos.

No mais, cê sabe que sempre pode contar comigo, até mesmo pra ajudar outros se estiver ao meu alcance.

no mais, força pra sua amiga =)

Juliana Dacoregio disse...

Nessas horas a gente fica mesmo sem ação, não consegue falar mais do que clichês de auto-ajuda ou fazer de conta que nada está acontecendo. Eu, pelo menos, sou assim. Há dois meses minha cunhada teve neném. Estava de 8 meses, mas a gente achou que não ia ter problema algum. Mas o bebê teve que passar 10 dias na UTI Neo-natal, em outra cidade ainda por cima, o que aumentava a dor da incerteza e a preocupação. Quando minha cunhada ainda estava no hospital e fui visitá-la, eu tava tão nervosa que levei um monte de presentes. É estranho pq quando nasce um bebê, a gente vai visitar na maternidade e leva presentes pro bebê. Mas, putz, o neném não estava lá, meu sobrinho não estava lá, então levei presentinhos pra mãe dele... Maquiagem, coisinhas de cabelo, pq seria muito estranho levar mimos pro baby que não estava lá. Então, escondi meu nervosismo, meu "não saber o que dizer" atrás de presentes, fui bem arrumada, maquiada e fiz de conta que era daquelas pessoas que acham que tudo vai dar certo. Mas eu estava morrendo de medo. No fim das contas, minha cunhada estava tão tranquila, tão aparentemente esperançosa, que eu saí de lá até mais aliviada.
Então, entendo o que você está dizendo. Às vezes quem mais precisa de consolo é quem mais demonstra força, e quem vê de fora só sente a dor e a vontade de lamentar e chorar. Talvez pq quem está no olho do furacão sabe que tem uma batalha longa pela frente e que não pode cair no desespero nem por um segundo sob pena de não conseguir sair mais dele.

marinamarela. disse...

Só o fato de voce sentir tudo isso que me fez sentir aqui lendo seu post, já faz toda a diferença pra sua amiga. De fato é só o seu carinho que ela precisa, e que o bebê tambem vai sentir.
Força força força! Abraços e carinhos a gente sente vibrando, o toque é apenas um detalhe quando se ama de verdade.

Júnior de Paiva / Dish disse...

"Não descobri ainda dor maior do que a de quem a gente ama."

Uma das piores dores, que se pode haver, é a dor de amar e simplesmente a pessoa não entender o que a gente sente é amor, e quando perceber, será tarde!

Belo texto moça!
Gostei bastante!
Se puder seguir o meu blog, ficarei grato!
Abraço!

Joyce Pfrimer disse...

sabe q passei o sabado pensando nessa história? Fiquei muito impressionada...

Como sempre ótimo texto!

=*