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domingo, 5 de junho de 2011

dos palhaços


Hoje à tarde eu estava de bobeira em casa, como é conveniente e correto num domingo meio preguiçoso, quando ouvi uma música conhecida, vinda de um lugar aqui perto. Era a cantoria de palhaços chamando as crianças do parque para o espetáculo que começaria em alguns minutos. Catei a Lu, que estava com a vovó, na casa de uma amiga e chegamos a tempo de caminhar com os palhaços em suas pernas de pau. Enquanto eu ia de mãos dadas com ela, me lembrei da quantidade de vezes que fiz isso quando era criança, no clube, ou em algum evento do trabalho da minha mãe e não soube contar quantas foram.
Existe em Anápolis uma companhia de teatro circense [será que posso chamar assim?] de nome Bokemboka. A verdade é que pra mim a cara do Bokemboka sempre foi a do Washington, também conhecido como Seu Menino quando está devidamente paramentado. A primeira memória que tenho dele é de quando eu tinha 4 anos. Era aniversário da minha irmã e o tema era o Circo. Ele ajudou minha mãe a fazer umas cabeças de palhaço para enfeitar a mesa, veio, na hora da festa, com sua mala enfeitada muito, muito linda, fazer uma apresentação de bonecos - um número que vi sei lá quantas outras vezes - e maravilhou as crianças. Os adultos também, eu suponho, mas naquela hora eu não estava ligando nem um pouco para as reações deles [não muito diferente de hoje].Isso foi em 1990.
Depois disso passamos a vê-lo em vários eventos na cidade e soubemos de apresentações em outros locais. A cada novidade eu sentia uma pontinha de orgulho, porque uma das minhas características mais estranhas é sentir orgulho por pessoas que eu conheço e são fodas. O Washington e seu trabalho são inegavelmente fodas. 
Quando eu tinha 14 anos comecei um curso de teatro na intenção de fazer o tal teatro circense e qual não foi meu DELEITE quando vi que havia dois professores que se encarregariam disso. Ambos trabalhavam no Bokemboka. Tive aulas com o Stallin e o Marcelo, que me deram aulas no único semestre que eu fiz e me fizeram descobrir que algumas pessoas nunca tinham dado uma cambalhota na vida. Como pode? Que raio de menino foi esse, que nasceu em 80 e nunca deu uma cambalhota? Francamente!

Bom, muito recentemente eu ouvi uma notícia que me abalou bastante. O Washington tá doente - e bastante doente. E todas as vezes que passo em frente ao local onde estavam sua lona e seu escritório sinto um aperto brutal no peito. Isso acontece pelo menos 5 vezes por semana, já que está no meu caminho para a faculdade.

Hoje eu vi a apresentação dos meninos que eu chamei por muito tempo de "os meninos do Washington". Ri como se jamais tivesse visto qualquer  daqueles números, como se tivesse cinco anos e como se nunca na vida tivesse sido triste. No meio disso, em dois momentos específicos, senti uma pontada de dor, ao me lembrar do cara que provavelmente ensinou um monte pra essa galera, que me divertiu tantas vezes, que alegrou um monte de criança e que sabe-se lá se vai poder se apresentar de novo. Comentei com a minha mãe que ao menos uma coisa me deixa satisfeita: o Washington - e qualquer pessoa que se preocupe em passar valores de para seus filhos/sobrinhos/molecada em geral - não precisam esquentar, porque crianças como a Luísa e todas as que estavam se divertindo no parque verão a continuidade do trabalho que é feito há anos, com muita dificuldade e carinho ainda maior. As músicas, as caixas, as máscaras, as brincadeiras, a diversão sem maldade vão continuar ali. E enquanto alguém ouvir da cozinha de casa o palhaço cantando e atender o chamado, eles vão nos fazer rir.



O Stallin está, desde 2001, com a Companhia Itinerante Tem Sim Sinhô e vem fazendo trabalhos com o Projeto Boca Do Lixo pra promover arte e cuidado ambiental. No fim do espetáculo de hoje havia mudas de árvores frutíferas, que algumas pessoas puderam levar para casa. A quem possa interessar: no próximo domingo tem apresentação novamente, às 17:00 no Parque Ipiranga. Vale pra todo mundo, quem tem filho e quem não tem. É lindo! É sempre lindo!





*Essas fotos foram tiradas no domingo seguinte ao domingo em que escrevi o texto. Levei a meninada pra ver. :)