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sábado, 16 de junho de 2012

das coisas que uma língua pode proporcionar



Depois de vinte anos na escolaaaaa não é difíc-- em ambiente escolar é relativamente simples identificar professores que se comprometem com o que fazem e os que estão ali pra garantir o leite das quiança, o anel de diamante da esposa ou a cerveja do fim de semana. Tendo saído de uma universidade pública e caído num centro universitário particular, reparei que as diferenças são muito maiores entre os alunos desses dois tipo de instituição que entre os professores, como era o meu medo. A diferença mais gritante é a postura de crianças obrigadas a fazer dever de casa que parte do pessoal da particular carrega e bota pra fora a todo momento. Ler texto de 10 páginas é castigo, trabalho descrevendo 20 tipos de ervas é tortura, é sacanagem do professor pedir que a turma experimente ingredientes, preparações ou o caralho a quatro de que não se goste. O "aim, não gostom, aim, não querom" é espantosamente comum. Convenhamos que um estudante de Gastronomia não precisa gostar de todos os sabores, mas tem a obrigação de conhecê-los.


Sexta-feira tivemos uma aula prática, com um desses professores que dá banho de competência em vários que eu tive na UnB, dividida em duas partes: na primeira ele preparou uma língua de vaca, explicou como se faz o pré-preparo, quais as possibilidades para a limpeza etc etc. Na segunda parte fizemos testas para a prova que será feita na semana que vem, a criação de um prato com determinadas características definidas pelo professor, que será, no entanto, avaliado por um convidado "leigo" em Gastronomia.

Foi a primeira vez que tivemos que efetivamente criar um prato, ainda que tivéssemos algumas ideias diferentes, não havia sido exigido isso até o momento. Cada dupla foi lá, executou sua ideia, testou o que achava que funcionaria. O professor orientou e, com os pratos prontos, deu sugestões de apresentação e eventuais mudanças. Finda essa parte, voltamos à lingua do boi, que jazia num molho espesso e perfumado. O chefe da brincadeira comentou que ainda não estava no ponto ideal, mas já seria possível saber do que se trata o prato.

Língua de boi é um troço horroroso. Se você já viu uma, sabe que eu não tô exagerando. Eu, particularmente, não gosto da textura da carne, o sabor, contudo, me agrada. Fui lá, peguei meu pedacinho de carne, experimentei, achei muito saborosa, porém a experiência não foi completamente boa por conta da textura e isso foi relatado. O que se seguiu foi uma porrada de gente se negando a sequer degustar a preparação. O professor falou algo muito parecido com o que tá escrito ali sobre a nossa obrigação de conhecer ingredientes e a existência de empregos muito bem pagos pra quem se dispuser a realmente trabalhar por eles, terminou com um "ah, não vou mais gastar meu latim com vocês" e uma cara tão frustrada que me deu vontade de ir lá abraçá-lo.
Saindo da sala, fui conversar com ele sobre mudanças no meu prato que, a despeito de ser uma boa ideia, havia ficado muito aquém do potencial existente na mistura escolhida.
Falei o que eu imaginava que pudesse melhorar, ele concordou com umas coisas, discordou de outras e aí eu disse o quanto achava difícil criar com tanta coisa que eu poderia acrescentar. Perder o foco é muito fácil.

_Isso é porque vocês não usam a técnica que eu ensinei.

_Desculpa, acho que nã--

_Cê não vai me perguntar qual técnica, Mayra?

_Hehehe, vou. Qual técnica?

_Escrever. Coloca no papel o que você acha que pode funcionar. Vai imaginando, o peixe será feito assim, vou usar tal tempero, meu molho é acido, então minha carne precisa ser mais adocicada, ou ter alguma gordura pra balancear, usa o modelo de ficha técnica que vocês têm, escreve, decide os acompanhamentos, a guarnição, você já pode até pensar a apresentação do prato nesse estágio. Quando você for executar a receita, anota as modificações que você precisar fazer. Vocês querem cozinhar só por inspiração e isso não funciona sempre. Quando você constrói, faz uma planta primeiro, não sai construindo a esmo, né?

Eu apenas concordei e agradeci. Não concordei com tudo, porque sou rebelde porque o mundo quis assim. Nã, porque eu sou cabeçuda mesmo e acho que criação é um processo pessoal, pode ser diferente pra cada um, tanto com a caneta quanto com as panelas.
Acontece que eu saí de lá com tanta coisa na cabeça. E acho que essa pode ter sido uma das coisas mais valiosas que eu aprendi nesse curso, ali, ó, parelhado com com o bife perfeito.

Não tenho muita certeza se digeri tudo que eu vi e ouvi. Parece pouco pra quem vê de fora, eu suponho, e tomou minha cabeça dum jeito que, se um dia alguém escrever um livro sobre mim [deus livre o mundo de tamanha desgraça], terá obrigatoriamente que citar essa noite.


4 comentários:

Nick disse...

Serião, próxima encarnação eu quero escrever tão bem quanto a Mayra... só não cito que gostaria de cozinhar também pois não como carne e sei que eu iria virar uma bola comendo cupcakes e todas delícias doces que vi ela fazer e postar no "twinter"... =]

Letícia disse...

Eu tava pensando em algumas dessas coisas ontem mesmo. Um professor nosso postou pra gente um manual maravilhoso de legendagem, completíssimo. Aí colega desavisada pergunta um atalho, eu respondo, ela agradece. Eu aviso: se esquecer depois, tem no manual. Ela: "ah, achei o manual mto grande, deu preguiça de ler". ¬¬
Aí tinha que ver um filme e legendar um pedaço. Ela: "ai, nem vi, meu marido e eu achamos que seria chato". E olha que o curso é de pós graduação.

Tava com saudades dos posts do Conge. <3

Livia Holanda disse...

"Nã, porque eu sou cabeçuda mesmo e acho que criação é um processo pessoal, pode ser diferente pra cada um, tanto com a caneta quanto com as panelas."
Taí, tamo junta nessa.

Eu tb não curto a textura da língua não... mas super experimento se nego vier falar que tá gastando todo o latim pra me fazer provar. rs

Esperamos pelo livro.

Paula disse...

Aah, você escreve de um jeito tão singelo e sincero!

Achei muito muito legal, parabéns!
Vou fuçar mais no seu blog (=

Abraço!